Boavista: A queda de um gigante

Abril 23, 2008

Miguel Pereira

Em 2001, o Boavista sagrar-se-ia campeão nacional. Era o momento mais alto deste clube da cidade invicta, que sempre viveu na sombra do FC Porto. Sete anos depois, tudo é diferente para os lados Bessa; a colectividade atravessa a pior crise de que há memória. Os jogadores estão a algum meses sem receber o seu salário e a ameaça de fazer greve no jogo com o Nacional esteve bem perto de se concretizar.

Ao longo desta semana, o Boavista recebeu tanto protagonismo nos media como qualquer um dos três grandes. Infelizmente, tal aconteceu devido à grave situação financeira do clube e a ameaça de greve dos seus jogadores.

De repente, parecia que tinha chegado um D. Sebastião ao Bessa: o seu nome era Sérgio Silva, representante da empresa Castle Shore, com sede em Londres, e prometia injectar 38, 5 milhões de euros nos cofres dos “axadrezados”, o que permitia saudar os salários em atraso e diminuir um passivo de 90 milhões de euros. Um homem, que, segundo as finanças era pintor da construção civil e colocador de vidros, tinha um passado dúbio, caía como um autêntico furacão no Bessa.

Só que tudo não passou de um conto do vigário e o suposto salvador clube seria detido pela Polícia Judiciária para interrogações. Sairia das instalações da PJ do Porto com o Termo de Identidade e Residência. Pelo que parece, o Sérgio Silva foi detido na posse de cheques falsos e outros documentos de origem duvidosa.

Com tudo isto, a crise interna no clube agravou-se. Os jogadores “axadrezados”, fartos das promessas da direcção, tiveram uma reunião com Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF) e concluíram que a melhor solução seria avançar para a greve. Contudo, na véspera do jogo com o Nacional foram dadas garantias aos atletas boavisteiros e a equipa, demonstrando um grande profissionalismo, não só compareceu no encontro como também o venceu. Ao que o Online apurou, foram os adeptos “axadrezados” que contribuíram para que um mês de salário fosse pago aos jogadores. Além disso, um grupo de associados criou uma conta para o ajudar o clube a sair da situação financeira.

Esperança numa resolução

De modo a tentar saber mais sobre a situação, O Online chegou à fala com um jovem boavisteiro que nos deu a opinião sobre uma situação que não surpreende ninguém para os lados do Bessa

“Quando o João Loureiro saiu, os adeptos mais lúcidos já sabiam há muito tempo do buraco enorme que tinha acontecido dentro do Boavista”, começa por referir Diogo Faria, de 19 anos. O sócio “axadrezado” nº8291 considera Joaquim Teixeira, presidente do Boavista, um “homem honesto” e acima de tudo “um grande boavisteiro”, que está auxiliado de homens experientes, como Álvaro Braga e Tomás Rijo. No entanto, Diogo encara-o como “um dirigente pouco frio e ingénuo”, que o desespero levou a aceitar a ajuda da primeira pessoa que apareceu.

O jovem boavisteiro esteve ao longo da última semana no Bessa para testemunhar de perto os piores dias da história da sua equipa, e descreveu-nos o clima no reino da pantera, particularmente algumas situações absurdas e dramáticas no plantel: “Estive lá desde quarta-feira, mas muito pouco adianta, porque a confusão é enorme. Os adeptos estão revoltados, vi pessoas a chorar, desesperadas. Os jogadores estavam completamente em baixo”, frisa, acrescentando que teve oportunidade de falar com o guarda-redes do clube Peter Jehle, que, de acordo com Diogo, é “uma pessoa muito humilde e fantástica”.

O culpado do caos que o Boavista atravessa é só um: João Loureiro. “Foi a pior gestão que algum clube poderia ter tido. Ele não soube reparar na disparidade de receitas e despesas, demonstrando imensa incompetência no âmbito financeiro”, analisa Diogo, embora seja da opinião que o Boavista foi prejudicado com a construção do novo estádio, pois foi o clube que menos verbas recebeu para a construção do mesmo. Pensa, contudo, que, na altura da entrada de João Loureiro para presidente do clube, se idealizou um projecto “que estava para além do que era o Boavista”.

No último domingo, Diogo esteve no Bessa a assistir à vitória da sua equipa ante o Nacional. Mais do que o triunfo, Diogo ficou satisfeito com a união dos jogadores. Apesar das dificuldades, o jovem “axadrezado” tem a remota esperança que tudo se vai resolver. E assim esperam todos aqueles que, como ele, amam o Boavista.

P.S. Conta criada pelos adeptos do Boavista para ajudar do clube:
NIB: 0043 0001 0400 1005 75983.
IBAN: PT50 0043 0001 0400 1005 75983

Odivelas: Moradores da Serra da Luz acusam autarquia de os ter enganado

Março 10, 2008

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Fábio Canceiro 

As famílias que habitavam nos três prédios que foram evacuados no Bairro da Serra da Luz, Odivelas, por estarem em risco de derrocada, acusam a Câmara Municipal de os ter enganado com “falsas promessas” de uma habitação melhor.

Duas semanas depois, “continua tudo na mesma”: Os três prédios da Rua Dom Afonso Henriques continuam selados a aguardar ordem de demolição e os seus moradores hospedados numa pensão de Lisboa à espera de uma resposta das autoridades camarárias.

De acordo com a autarquia, os três lotes construídos numa zona não apta para construção, “encontravam-se em perigo eminente de derrocada”, e por essa razão decidiram no dia 20 de Fevereiro retirar os seus moradores e realojá-los “provisoriamente” numa pensão de Lisboa.

“Chegaram lá de manhã e disseram-nos que tínhamos de sair ainda nesse dia”, recorda Maria do Carmo, reformada por invalidez, residente no bairro há 36 anos.

“Ainda me lembro do dia que cá cheguei, pouco tempo depois de me ter casado”, recorda emocionada.

Aos 57 anos e com vários problemas de saúde, Maria diz que aquilo que lhe aconteceu “foi uma verdadeira bomba”.

“Eu vivo com imensos problemas, o meu marido só tem um pulmão, e agora isto”, lamenta.

Os moradores confessaram que o “seu maior drama é o impasse gerado na atribuição de novas moradias”. Dizem-se “enganados e abandonados por quem no início lhes prometeu ajudar a refazer a sua vida”.

“No início tivemos muito apoio de psicólogos e dos funcionários da câmara. Não nos largavam”, contam

Para Paulo Conceição, residente no bairro há 26 anos, tudo não passou de “uma tentativa de minimizar a situação”.

“Quiseram evitar problemas e mesmo confrontos”, acusa. “Sabiam bem que jamais sairíamos a bem se soubéssemos a verdade”.

Fausto Gomes, pedreiro de manutenção, reforça as acusações dos vizinhos. Está convencido que aquilo que a câmara fez foi “uma verdadeira caça ao devoto”.

“Prometeram-nos que íamos para um sítio melhor e no final veja onde acabamos”, acusa.
Em declarações à Lusa o vereador José Esteves Ferreira assegurou que “as pessoas não têm motivo para se sentirem enganadas porque a câmara municipal está atenta à situação de cada uma das famílias”.

“Temos mantido reuniões com o Instituto de Habitação e com a Segurança Social de forma a conseguirmos em tempo aceitável encontrarmos uma solução definitiva para estas famílias”, explica.

Fausto diz que no máximo, o vão ajudar “a pagar duas ou três mensalidades de uma casa que venha a arrendar, mas confessa que “mesmo assim não está satisfeito”.

“Sinceramente não sei que pensar. Sinto uma grande revolta dentro de mim”, diz.

José Esteves explicou às Lusa que esta “solução foi de recurso, uma vez que nenhuma das famílias está inscrita no Plano Especial de Realojamento (PER) “.

“Nunca prometemos nenhuma casa, apenas dissemos aos moradores que seria uma situação provisória. Aquilo que posso assegurar é que estamos altamente empenhados em solucionar este problema o mais rapidamente possível”, declarou.

O vereador explicou, ainda, que estão a ocorrer atendimentos sociais individualizados “de forma a perceber-se quem são aqueles que mais precisam”.

“Vamos tratar cada caso de forma individualizada. Cada caso é um caso”, rematou.

Entretanto, a Lusa esteve na pensão onde as 28 pessoas alojadas vão tentando refazer a sua vida. Umas continuam à espera de uma resposta positiva, outras dizem-se conformadas e afirmam que vão procurar casa por conta própria.

Um desses casos é o de Paulo Conceição que já começou a ver algumas casas para arrendar.

“Uma vez que estamos à nossa sorte não me resta outra alternativa senão procurar uma casa para viver. Assim é que não posso continuar”, diz.

De acordo com informações recolhidas junto da câmara não “existe ainda qualquer data prevista para a demolição dos prédios assim como para o desfecho deste processo.

“Queremos fazer uma análise cuidada, daí necessitarmos de mais tempo para aplicarmos as ferramentas que se adeqúem a cada um dos casos”, explicou.

Até que sejam resolvidos todos os casos, as famílias ficarão alojadas numa pensão subsidiada pela segurança social e com transporte escolar assegurado para os quatro menores que habitavam nos edifícios evacuados.

Foto:LUSA

“Colocar o nome no mapa”

Novembro 19, 2007

O projecto Map My Name foi lançado a 22 de Abril e tinha um objectivo ambicioso: descobrir ao certo quantas pessoas utilizam a Internet, em apenas um mês. Desenvolvido por dois estudantes da Universidade de Aveiro, João Ribeiro e Sérgio Veiga, o Map My Name é um projecto pioneiro, que parte de uma fórmula que não é nova, a de passar a palavra.
Passado um mês, o projecto chegou ao fim, sem chegar ao objectivo primordial, contudo, segundo os mentores, foi um sucesso.

Miguel Pereira

Tudo começou numa simples conversa de café: João Ribeiro e Sérgio Veiga, ambos estudantes do curso de Engenharia de Computadores e Telemática, da Universidade de Aveiro, conversavam sobre as mudanças que ocorreram na sociedade após a aparição da Internet. Com a conversa, os dois amigos, que já elaboraram vários projectos juntos, começaram a ter uma ideia para mais uma iniciativa, que teria como objectivo de chegar ao todo da população mundial que utiliza a Internet. Um projecto ambicioso, que, todavia, teria de ser elaborado de forma diferente, de modo a ser pioneiro e a ter um impacto global. Foi dada a ideia de colocar cada utilizador num mapa, que correspondesse à sua localização geográfica, surgindo daí a ideia para o nome Map My Name, que, segundo João Ribeiro, “só por si resume o projecto”.

Ao longo de cinco meses, a dupla esteve a desenvolver um projecto, cujo sucesso dependeria do “passar a palavra”. Partiram de uma fórmula de progressão em matemática exponencial para determinar quanto tempo teria o projecto: “A nossa variável é o dia e ela dá-nos o número de pessoas que obtidas em X dia. Ou seja, basicamente se cada um de nós contar a três amigos e esses três amigos contarem a outros três, chegamos ao número de utilizadores da Internet em 19 dias”, explica João, que, no entanto, alargou o prazo para um mês, com a esperança de por essa altura os registos no projecto ultrapasse o número que se estima da população mundial. Outro conceito que os dois amigos queriam provar era que cada pessoa no mundo está a menos de seis pessoas de distância.

Os dois estudantes estabeleceram uma data para o lançamento do projecto, que, de acordo com João, não foi escolhida ao acaso:”Como é do conhecimento comum, o dia 22 de Abril é o dia da Terra e não há melhor dia para lançar um projecto que se pretende que seja de impacto global do que o dia da Terra. Assim, associamos o projecto a ideias ambientalistas. Se conseguíssemos chegar a todas as pessoas que utilizam a Internet, por que raio é que não podemos ter preocupações com o ambiente”. Para que o Map My Name fosse lançado a 22 de Abril, os mentores do projecto tiveram de fazer alguns sacrifícios pessoais e profissionais. Sérgio Veiga recorda que houve muitos fins-de-semana em que abdicou de estar “com a família e com a namorada para estar com o João a trabalhar no projecto, para além das inúmeras noites passadas em claro”.

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A partir de 22 de Abril, ao acedermos ao sítio http://www.mapmyname.com, podíamos ter acesso ao projecto desenvolvido por João e Sérgio. Trata-se de um site Web 2.0 (uma nova forma de fazer sites), baseado em tecnologias open source e que utiliza o API do Google Maps, que permite que os utilizadores coloquem o seu nome no mapa. Logo ao abrimos o site, temos acesso a um vídeo em que João explica, em Inglês – refira-se, igualmente, que todo o site é em Inglês –, o objectivo da iniciativa. “O objectivo do vídeo era explicar em detalhe o projecto. Não foi fácil a gravação do vídeo. A máquina de filmar que nos emprestaram não tinha muito qualidade e o quarto onde gravamos não tinha muita luz. A dada altura o Sérgio estava com um candeeiro à frente da minha cara”, lembra João, com algum humor, a gravação do vídeo de apresentação do projecto. No canto superior direito, está presente o slogan do projecto: “One simple step and your in the map”, um slogan que surgiu com a ideia demonstrar que todo o processo era simples. E, de facto, estamos perante um projecto bastante simples, onde apenas precisamos de nos registar e de seguida podemos colocar o nosso nome na nossa rua de residência. Sublinhe-se que a partir do momento em que nos registamos no Map My Name, passamos a fazer parte do projecto e da estatística.

Os primeiros registados foram o círculo de amigos dos jovens. A primeira conquista dos dois estudantes surgiu quando apareceram os primeiros registados estrangeiros. “Na manhã do dia 23, quando acordei, verifiquei que o número de registados havia aumentado substancialmente e já estavam pessoas estrangeiras registadas. A minha primeira reacção foi telefonar logo ao Sérgio, para lhe comunicar a nossa primeira vitória”, recorda João, com enorme entusiasmo, e refere que “os primeiros dias foram bastaste interessantes”, porque todos os seus amigos opinavam, chegando a um momento em que ambos, à semelhança dos jornalistas, andavam com um bloco de notas a apontar tudo o que diziam. Os jovens reconhecem que foi muito graças aos amigos que melhoraram algumas coisas no site.

Rapidamente, a vertente pioneira do projecto chamou a atenção dos Blogs e mais tarde da comunicação social. A divulgação do Map My Name começou por ser feita através da Newsletter da Universidade de Aveiro. Depois, João e Sérgio começaram a ser contactados por jornais regionais, como o Primeiro de Janeiro e o Jornal da Bairrada, e o ponto alto chegou no momento em que foram contactados pela RTP: “Recebi um telefonema da repórter da RTP e tentei sugerir algo que fosse interessante de passar em televisão, como, por exemplo, aparecer o pivot registado no site”, recorda João, a origem da reportagem emitida no Jornal da Tarde do dia 27 de Abril. Refira-se que a divulgação mediática não se ficou só pelo nosso país, pois houve contactos com o mais conceituado jornal online holandês e com uma rádio belga.

Este sucesso em termos mediáticos não os surpreendeu, uma vez que o objectivo ambicioso dos dois jovens era susceptível de ser notícia. Contudo, este impacto mediático fez com que transparecesse a ideia de que se tratava de um projecto para um trabalho de fim de curso, algo que é prontamente negado pelos dois mentores.”A Universidade está, de certa forma, envolvida, porque os nossos conhecimentos foram adquiridos lá. Mas isto trata-se de um projecto pessoal, desenvolvido apenas por nós”, esclarece João, um dos pontos controversos divulgados nos media. Todavia, os dois estudantes percebem o por quê da confusão, dado que para enquadrar o projecto numa notícia era necessário referir o estabelecimento de ensino.

A 9 de Maio, Os dois amigos criaram um blog (http://blog.mapmyname.com) para divulgar ainda mais o projecto, bem como para que qualquer um dos utilizadores pudesse comentar e exprimir a opinião em relação ao projecto.

Um mês passou, rapidamente. A 23 de Maio, João e Sérgio deram oficialmente por encerrado o projecto, com apenas 18 mil pessoas registadas, muito aquém do que seria esperado. Isto é, o objectivo do projecto, de chegar ao número preciso de utilizadores da Internet, falhou. No entanto, o facto de os números terem ficado longe daquilo que seria suposto não desanima os mentores do Map My Name. Segundo Sérgio, é preciso ter em conta diversos factores, como “o facto de várias pessoas terem o mesmo grupo de amigos, ou nem todas as pessoas terem correio electrónico”. O jovem refere ainda que “houve inúmeras pessoas que não validaram o seu registo”, assim como “o total de page views é de cerca de 200.000”. Portanto, não há razões para se falar em fracasso, pois o grande objectivo era colocar a iniciativa no ar.

A primeira reacção da dupla após o fim do prazo foi de fechar o site. Porém, a pedido de algumas pessoas, o Map My Name voltou ao ar. “Para todos os efeitos o projecto acabou, apenas temos o site no ar para algumas pessoas puderem ainda se registar e para saberem que o projecto existiu”, refere Sérgio, triste por não ter conseguido o objectivo a que ele e João se propuseram.

Apesar de não terem conseguido atingir o objectivo, Sérgio considera que “a iniciativa foi um sucesso”. Apenas falhou o elemento que, já à partida, anteviam que seria o factor mais complicado do projecto: as pessoas. Grande parte dos registados, mais de 90%, não trouxe as três pessoas que lhes eram “exigidas” e, portanto, o Map My Name não atingiu o seu objectivo. Outros problemas, contudo, também surgiram. “Tivemos problemas com o servidor, o que causou má impressão nos utilizadores, e também alguns e-mails foram parar ao lixo electrónico, o que fez com que algumas pessoas não pudessem validar o registo”, frisa Sérgio.

Logo a seguir, ao encerramento do projecto, os jovens apresentaram no seu blog um conjunto de estatísticas que foram possíveis apurar através dos registados, um desejo inicial de Sérgio e João aquando do começo do projecto.

No último texto escrito no blog, João lamenta o facto de muitas pessoas pensarem que “eu sou só um, que não vai fazer a diferença na contagem de milhões”. Ou seja, um estado de espírito que não ajuda, em nada, projectos deste tipo. Após um mês que, devido ao impacto que teve o projecto, foi gratificante para João e Sérgio, os estudantes agradecem a todos aqueles que, sem receberem nada em troca, acreditaram e aderiram ao projecto.

Há um grande desejo por parte dos dois amigos em continuar o Map My Name e criar uma rede social virtual diferente. Mas, infelizmente, esse é um cenário que parece cada vez mais improvável, por uma simples razão: não há financiamento. Um factor que deixa naturalmente frustradas as esperanças de uma continuidade do projecto. Quer Sérgio, quer João, defende que se fosse num outro país, que desse mais atenção aquilo que é feito pelos locais, como, por exemplo, os Estados Unidos e até mesmo a Espanha, provavelmente já teriam o capital necessário para continuar o projecto. “Infelizmente, tem-se a ideia de que aquilo que é português é mau, e o facto de muita gente pensar que é um projecto da Universidade de Aveiro também não ajuda”, refere Sérgio. Até da própria Universidade não têm recebidos apoios, nem sequer palavras de parabéns, o que os deixa de certa forma resignados, embora compreendam, dado que o reitor deve pensar, um pouco por confusão nas informações, que se trata de apenas mais um projecto do estabelecimento.

Para tentar manter o projecto, há no site um link em que qualquer pessoa pode doar até 100€. Os dois jovens receberam até o momento cerca 50€, quantia insuficiente para pensar na continuidade do Map My Name, como também para cobrir toda a despesa feita no projecto, cerca de 4.000€.

Por agora, João e Sérgio passam cerca de duas horas por dia a responder a todos os emails recebidos. Porém, os dois jovens pensam que é altura de estabelecer certas prioridades: “Nós estamos quase sempre em contacto, para não acontecer o caso de ambos respondermos ao mesmo email. Mas sentimos que não podemos dedicar tanto tempo ao projecto, porque eu tenho um curso para acabar e o Sérgio um mestrado”, sublinha João, com consternação e com a esperança de que nos próximos dias uma das mensagens recebidas por correio electrónico seja de alguém que pretenda investir o capital suficiente para a continuidade da iniciativa.

Apresentação do novo livro de António Monteiro Cardoso na Fundação Mário Soares

Outubro 29, 2007

Daniel Lopes

Quinta-feira, dia 18 de Outubro de 2007. Antes da hora marcada para o início da apresentação do novo livro de António Monteiro Cardoso, “Timor na 2ª Guerra Mundial: O Diário do Tenente Pires”, já se aglomerava um grupo de pessoas à porta da Fundação Mário Soares, em Lisboa.

Importa salientar que o autor da obra já exerceu o cargo de chefe de gabinete do secretário de Estado da Comunicação Social. É autor do romance “Boas Fadas que Te Fadem” e de obras de investigação no domínio da História e da Comunicação, bem como Doutorando em História Contemporânea pelo ISCTE (Instituto de Ciências Sociais do Trabalho e da Empresa). Monteiro Cardoso lecciona também a cadeira de Direito da Comunicação Social na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa.

Chegada a hora (18 horas), o auditório José Gomes Mota estava cheio, não havendo lugares sentados suficientes para todos aqueles que vieram assistir a esta apresentação.

Nas filas da frente encontravam-se os pais de António Monteiro Cardoso, um deportado deste período com 95 anos de idade, bem como os embaixadores de Timor e da Austrália.

A abertura desta conferência deveu-se a Mário Soares, antigo presidente da república e ex-primeiro-ministro, não fosse esta iniciativa realizada no espaço da sua Fundação.

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Soares enfatizou a ligação que mantém (através da sua Fundação) com Timor, agradecendo a todos aqueles que financiaram este livro (dos quais destacou a Fundação Oriente, o IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento – e a FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia).

Considerou este livro como sendo essencialmente “um diário, um documento pessoal e até íntimo”. Acima de tudo, “um ponto de partida para um excelente estudo”, onde está em causa o episódio do expansionismo japonês, “muito violento e sanguinário”.

Ao longo da sua exposição, Mário Soares vai contando várias passagens de acontecimentos relatados no livro, considerando-o “um estudo muito bem escrito, aliciante, fácil de ler, mas difícil de escrever.”

Coube posteriormente ao historiador, professor e político Medeiros Ferreira a oportunidade de tomar a palavra. Começou com uma introdução humorística (uma comparação entre o não uso de gravata por parte de Monteiro Cardoso e o uso da mesma por Mário Soares), tendo em vista uma maior adesão da audiência ao seu discurso.

Desta forma, salientou a existência de dois erros por defeito no título do livro (“Timor na 2ª Guerra Mundial: O Diário do Tenente Pires”). Em primeiro lugar, para Medeiros Ferreira “a primeira parte do livro é muito mais do que a história de Timor na II Guerra Mundial”. O segundo erro apontado pelo historiador deve-se ao facto de “a segunda parte do livro [o diário do Tenente Pires] pecar pela ‘palidez’; este não é o diário, nem o drama do diário do Tenente Pires”. Apesar disso, Medeiros Ferreira considera o Tenente Pires como “uma figura espantosa; alguém que se defronta com escolhas, mantendo a sua consciência e a sua coerência”.

O livro é, segundo Medeiros Ferreira, constituído por duas partes distintas: uma primeira da “autoria de Monteiro Cardoso. É uma obra universitária, pelo rigor da análise, pelo aparelho bibliográfico, estando isento do lado barroco académico.” Considera também que esta obra peca por “ter 35 anos de atraso”. “Mas a culpa não é do autor”, frisa Medeiros Ferreira, aludindo ao regime ditatorial que governou Portugal no período do Estado Novo e à fraca existência (ou censura) de fontes

Continuando a análise desta que considera ser a primeira parte do livro, Medeiros Ferreira refere ainda que esta obra “dá o enquadramento da repressão dos timorenses no período dramático [invasão nipónica] entre 1941-44”. “Este livro remete para um dos períodos mais sacralizados da História contemporânea de Portugal: a neutralidade do Estado Novo”. Uma neutralidade colaborante, ou seja, “o conceito para Salazar justificar o facto de a guerra ter acabado: a Inglaterra venceu, isto é, nós ganhámos”, referiu Medeiros Ferreira, numa tentativa de ironizar esta dependência salazarista e a política externa portuguesa em relação à Inglaterra.

Medeiros Ferreira referiu ainda o facto de este livro ter um belo aparelho final”, salientando ainda que “as notas pé-de-página [presentes na obra] requereram um trabalho de verificação e de comparação”. Elogiou também a questão de o autor do livro ter contraposto a documentação portuguesa existente com a documentação estrangeira, nomeadamente australiana.

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Durante a sua longa exposição (entre todos os intervenientes nesta apresentação foi aquela que mais demorou), este historiador, político e professor considerou a segunda parte do livro (não esquecer de que Medeiros Ferreira divide este livro em duas partes) como “o diário, a correspondência do Tenente Pires”. Mas quem era o Tenente Pires? “Não era um deportado, era um republicano, um colonial português”, porém tornando-se posteriormente um deportado entre a Austrália e Timor, devido à invasão japonesa deste último território. Assim, e terminado a sua intervenção, “Timor na 2ª Guerra Mundial: O Diário do Tenente Pires” é “um excelente livro, capaz de proporcionar um momento de reflexão política e pessoal para todos”.

Luís Cardoso é um escritor timorense, que teve igualmente a oportunidade de fazer parte dos convidados para a apresentação desta obra.

Desta forma, leu um texto de sua autoria a partir de uma frase extraída do livro em apresentação: “Caramba, Manuel, como esperas conseguir esconder tanta gente?”, narrando alguns dos acontecimentos (alguns marcantes) ocorridos durante a ocupação nipónica de Timor, “uma ocupação marcada pela opressão aos timorenses.”

Por fim, coube ao autor do livro pronunciar algumas palavras. Monteiro Cardoso elogiou o povo timorense, dirigindo assim o seu olhar para o embaixador deste país, sentado na primeira fila. Referiu-se à Austrália (igualmente presente através da figura do seu embaixador) como tendo realizado “um combate corajoso, conjuntamente com os portugueses e timorenses, na luta da grande resistência do povo timorense.”

Salientou ainda os riscos que alguns dos presentes passaram durante este período, aproveitando esta ocasião para admitir que nunca tinha estado em Timor, apesar de ter referido vários lugares e património deste país com alguma precisão durante o seu discurso.

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Enfatizou também o facto de os crimes cometidos durante a ocupação nipónica se deverem “à força militar deste país e não ao povo japonês”. Frisou ainda que tentou cruzar vários ‘olhares’ (tanto do Japão, como da Austrália e de Portugal) no seu livro, “contactando com testemunhos e documentação diversa.”

Aproveitou igualmente para desvendar um pouco da história desta sua mais recente obra. Em suma, o tema central é a ocupação Japonesa do território de Timor. O livro contraria (ou tenta, pelo menos) a tendência de seguir os arquivos de Salazar para contar a História relativa a este período (aqui está uma das explicações pelas quais Monteiro Cardoso optou por recorrer a fontes muito diversas). O livro associa as perspectivas macro e micro, ao utilizar como fonte principal o diário do Tenente Pires, que, quando é levado para a Austrália, sente o imperativo de regressar a Timor e de resistir ao invasor brutal e sanguinário, junto com o povo Timorense e as tropas australianas enviadas para o território. Um dia, em desespero de causa, o Tenente Pires escreve uma carta a Salazar pedindo que auxilie o povo timorense. Porém, Salazar entende e exige que os oficiais portugueses têm de reconquistar aos japoneses os seus postos.

Quanto ao paradeiro do Tenente Pires, Monteiro Cardoso referiu que “pouco se sabe após o momento em que foi preso”.

No final da apresentação, houve quem aproveitasse a oportunidade para comprar este livro, que, segundo dados da editora (o Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa do ISCTE e da Fundação Mário Soares), teve a sua primeira edição quase esgotada.

Clicar para Amigar

Outubro 14, 2007

Sérgio Mendonça

Ter amigos nunca foi tão fácil como é nos dias de hoje. Cada novo amigo está à simples distância de um «clique». Há muito por onde escolher. Não tem nada que enganar (!?). Há quem os tenha às dezenas, às centenas e até aos milhares! Mas estaremos a falar de verdadeiras amizades? E, se sim, qual o segredo para esta espiral inesgotável da amizade?

«Amigo do meu amigo meu amigo é!». Poderia, muito bem, ser esta a base para a construção da maior comunidade de amigos de todos os tempos (já conta com mais de 50 milhões de registos), mesmo que virtual. Os mais novos certamente já saberão do que se trata. Os mais velhos, talvez, não. Para que não restem dúvidas, cá vai a apresentação do fenómeno: Hi5 (escrito e lido à inglesa, talvez porque, para grande parte da juventude, a língua de Camões não tem tanto estilo).

Mas o que é o Hi5? Basicamente, o Hi5 é uma rede on-line, onde cada membro tem a possibilidade de criar a sua própria comunidade de amigos, buscando e juntando velhas e novas amizades. Para isso, basta registar-se no sítio oficial (www.hi5.com), e, a partir desse momento, tem a liberdade para construir o seu próprio perfil, de sua livre e espontânea vontade, disponibilizando todos os dados e fotos pessoais que bem entender. Dá-se, assim, a conhecer à posterioridade. Quanto mais apelativo for o perfil – quer em grafismo, fotografias ou informações pessoais – mais hipóteses há de arranjar novos amigos. Pelos menos é o que pensam muitos dos membros, que colocam à disposição de todos (conhecidos e desconhecidos) a sua descrição, da cabeça aos pés, os seus interesses, a todos os níveis, e, ainda, um role, por vezes consideravelmente grande, das suas fotos mais…apelativas. Apesar de nem sempre tudo corresponder à realidade. O que levanta questões delicadas… e até perigosas. Segundo um estudo sociológico norte-americano, o Hi5 tem uma forte influência nas opiniões e escolhas de crianças e jovens adolescentes, nomeadamente é apresentado o exemplo dos gostos musicais de cada um. Não será ao acaso que a própria indústria discográfica se aproveita deste poder sobre os mais jovens. Porém, os aspectos negativos não ficam por aqui, como se irá ainda constatar.

Mas para além das funcionalidades anteriormente referidas, há ainda a possibilidade de pôr à disposição, de todos quantos visitam a página de cada perfil, músicas, vídeos, imagens e todo um sem fim de categorias. Merece ser salientado o facto de só em 2006 o sítio do Hi5 ter somado cerca de 2,3 mil milhões de visualizações de utilizadores portugueses (só do continente), na sua maioria entre os 15 e os 24 anos, conforme revela um estudo feito pela Netpanel.

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À parte do que cada um escreve e publica, na rede, sobre si, há ainda a possibilidade de comentar os perfis e fotos dos outros. Pode-se dizer tudo o que se quer. O Hi5 permite-nos expressar tudo aquilo que muitas vezes não conseguimos «deitar cá para fora» no quotidiano, na «vida real». O que nem sempre é agradável para todas as partes. Consegue-se ainda, através do Hi5, comunicar através de mensagens, num funcionamento muito semelhantes ao do simples e-mail.

Apesar de toda a virtualidade, é de pessoas reais que vive o Hi5.

David tem 15 anos e o seu perfil no Hi5 “há um ano e tal”. É um jovem adolescente lisboeta, que vive na Amadora, está descomprometido, e assume-se, sempre com um registo de boa disposição, como amigo, calmo, engraçado e…parvo (entre outras características) – está tudo na sua página de perfil (pois claro!). Acredita quem quer. David não tem qualquer problema em assumir as motivações que o levaram até o Hi5. “Tenho Hi5 porque é uma moda. Porque muitos dos meus colegas já tinham e eu decidi experimentar.” Porém, tem consciência que as utilidades desta comunidade da amizade são limitadas. “É divertido para passar o tempo.” E por aí se fica.

Este jovem, de cabelos e olhos castanhos e com cerca de 1,75m, reconhece que o Hi5 “pode ter alguns aspectos negativos”, visto as pessoas colocarem lá as suas fotos e informações pessoais. Porém, não teme o que terceiros possam fazer com elas. “Não tenho lá nada de muito importante, que me possa comprometer.” Talvez por nenhum dos seus amigos ter sofrido qualquer tipo de abuso, tal como ele, assegura que não está a pensar tirar o seu perfil da internet. “Até agora, não tive qualquer problema com ele, portanto não estou a pensar em tirá-lo.” Se algum dia se justificar, pensará nessa opção, “dependendo do problema.”

O Hi5 tem como idade mínima de admissão os 13 anos. Mas, para David, só “a partir dos 15” se tem a idade “adequada” para entrar neste mundo. “Pode ser perigoso crianças muito novas se meterem nessas coisas.” Apesar de ter consciência de que tudo “depende da educação que é dada a cada um”, ele acha que os pais “deveriam ver os perfis dos filhos” e “filtrar as fotos apresentadas”. Mesmo com esta opinião, David deixou escapar o facto dos seus pais desconhecerem por completo a existência de um perfil seu «à mão de milhões de pessoas».

Certamente não será caso único, mas o próprio sítio tem uma secção exclusivamente dedicada a conselhos para os jovens adolescentes e para os seus pais. [ver caixa].
Importante de referir: até à data, David já contava com 131 amigos na sua comunidade, muitos comentários feitos e muitos recebidos.

Entre os amigos de David, nem todos conhecidos pessoalmente, está Raquel, uma estudante universitária de 20 anos, que, por acaso ou não, até é sua conhecida pessoal. Não fosse ela a namorada do seu irmão mais velho.

Raquel tem o seu perfil – muito colorido e repleto de imagens – on-line “há cerca de ano e meio”, depois de ter cedido à pressão dos “convites” de muitos dos seus amigos.
“Fiz primeiro o log in e depois é que fui ver como aquilo era. Quando fiz aquilo não sabia de nada. Não sabia como era, para que servia… Só depois de estar registada é que comecei a ver os perfis dos meus amigos.”

Raquel admite ter gostado, desde logo, do Hi5, pois permite-lhe “encontrar pessoas com quem não convivia há bastante tempo: colegas de escola, amigos de infância…”. E, além disso, “há também a possibilidade de conhecer outras pessoas”, apesar de confessar que essa não é essa a “vertente” que mais a cativa. Esta jovem, de cabelo claro e encaracolado e olhos castanhos, que reparte a vida entre Lisboa e o Sobral de Monte Agraço, encara esta rede de amizade como um “complemento”, que lhe permite “conhecer os gostos das pessoas”, pois cada vez mais as “relações são feitas à distância”. Culpa “da internet e dos telemóveis”!

Tal como David, Raquel ainda não teve situações negativas no Hi5. Relata apenas a grande frequência de convites de “pessoal estranho” para serem seus amigos. “Desde homens de 40 anos a miúdos de 12, 13 anos, que eu não conheço de lado nenhum.” Mesmo assim, Raquel não teme que as suas fotos sejam utilizadas para fins menos próprios, mas pensa que é “um risco”. “Acho que vale a pena!” Tudo em nome da amizade e de “antigos conhecidos”. Desistir do Hi5 “só mesmo numa situação extrema”.

Outro fenómeno do Hi5, que quase se tornou um mito, é a iniciação de relacionamentos amorosos através do mesmo. Raquel é directa quanto a esse assunto: “Há muito engate. Hoje em dia o engate passa pelo Hi5, sem dúvida!” E reforça essa sua ideia contando a história de uma amiga. “Tenho uma amiga minha que conheceu o namorado pelo Hi5. Claro que aquilo não durou, porque ela pensava que ele era uma coisa, e, na realidade, ele era outra.”

Quanto a questões de idade, Raquel pensa que só deveria ser permitido o acesso a estas comunidades “a partir dos 16 anos”. “Mais cedo as crianças não têm noção dos perigos a que estão sujeitas, porque pode alguém vir falar com elas, meter-se com elas e querer combinar encontros, fazer-se passar por uma coisa que não é.” O flagelo da pedofilia está também presente no Hi5. “Há o perigo das crianças conviverem com pessoas que não conhecem. As crianças são facilmente manipuláveis e, se calhar, são atraídas para encontros…”. Esta jovem cristã, que só bebe socialmente e não fuma, refere também que a resposta a este problema passa pelos pais, defendendo que são eles que devem vigiar de perto os filhos e os sítios na internet que frequentam e com que finalidade. “Os pais deveriam estar atentos. Mas há pais que não têm formação para isso, que não percebem nada de computadores e que não podem mesmo dar apoio aos filhos. Os pais deveriam informar os filhos sobre o melhor modo de lidarem com isto: não por fotografias é uma boa hipótese.”

Raquel fala-nos ainda de outra faceta do Hi5: a publicidade. De salientar que segundo os regulamentos oficiais é proibido a qualquer tipo de organização criar perfis com fins publicitários. Porém, “há casos de discotecas e bares que também têm uma página de Hi5 com os seus amigos, ou seja, com os seus clientes.”, conforme relata Raquel. Para além destes casos, há ainda o facto de “muitos cantores e artistas” terem aderido ao Hi5, “permitindo aos utilizadores acederem a informações deles, músicas… É uma forma de promoção de artistas”.

Demonstrando-se completamente conhecedora do Hi5, esta estudante garante: “O meu perfil vai continuar on-line e com actualizações constantes.”

Mais uma vez, importa não esquecer o mais importante: Raquel conta já com 280 amigos, muitos «cliques» e muitos e variados comentários recebidos e efectuados.

Curiosamente, entre a lista de Hi5 de amigos (uns mais que outros, como a própria assume) de Raquel, não encontramos Nuno, que, para que não haja dúvidas, é mesmo amigo dela, pelo menos na dita «vida real». Tal facto deve-se a Nuno, um estudante universitário com 21 anos, ser um assumido «anti-Hi5». Ele pensa que “há um entusiasmo demasiado exacerbado” à volta do Hi5. E apresenta-se como um crítico acérrimo deste “problema que se engloba numa determinada cultura que está a ser passada para a juventude deste pais, que passa, muito mais, por uma ideia de tu dares uma fachada, de seres uma pessoa politicamente correcta, e de te sujeitares àquilo que é o sistema do «comer e calar».” Mesmo assim, Nuno reconhece que “existem pessoas que têm no Hi5 coisas de bastante qualidade, que não há nada que se lhes possa apontar o dedo”. Mas, de seguida, Nuno dispara em todas as direcções. “O Hi5 é uma forma de mostrar personalidade, que, quando se vai ver, a maior parte das vezes, não passa de uma fachada.” E continua… “A maioria das fotos que se vê lá são, sem dúvida, medíocres”.

Quanto a alguma utilidade que o Hi5 pudesse ter, o jovem é claro, conciso e coerente: “Não serve para nada de importante!”

Mesmo não fazendo parte da grande comunidade de amigos que é o Hi5, Nuno não hesita em opinar sobre aspectos negativos do Hi5. “Acredito que esse tipo de programas seja propício para vinganças pessoais, que se está habituado a ver na internet muitas vezes.” E alerta, ainda, para a necessidade urgente de os pais “terem especial cuidado” com os filhos: “Há certo tipo de conteúdos que poderão ser abusivos para algumas idades. Não é censura, mas controle da vida dos filhos, de forma a que eles tenham um crescimento «saudável».”

A posição de Nuno relativamente à sua adesão ao Hi5 é novamente vincada, para que não restem dúvidas. Colocar o perfil on-line? “Não! De forma nenhuma! Não sinto necessidade de andar a por as minhas fotos nesse tipo de coisas. As pessoas que conheço, conheço pessoalmente, conheço em situações da vida real e creio que não estou disposto a entrar nesse tipo de brincadeiras cibernéticas.”

David e Raquel, como muitos jovens portugueses, representam uma geração que vive e sente a amizade num sentido diferente, talvez mais vasto. Virtude de uma nova era, repleta de novas tecnologias. Onde não há barreiras palpáveis e a frustração da ausência física não parece tomar grande importância no estabelecimento de laços de amizade. Já para Nuno a distância de um «clique» parece ser demasiada e a proximidade humana indispensável.

«SUGESTÕES OFICIAS DE SEGURANÇA ONLINE DO HI5»

Conselhos para os jovens adolescentes

•Proteja as suas informações. Utilize as definições de segurança para controlar quem pode visitar o seu perfil. Lembre-se de que se não utilizar as funções de segurança, qualquer um pode aceder às suas informações. Tenha o cuidado de não publicar informações que o tornem fácil de localizar por estranhos.

•Nunca se encontre com estranhos. Evite encontros com alguém que conheça online. Se tiver de se encontrar com um amigo online, marque o encontro num local público, durante o dia e peça a um parente próximo (pai ou mãe) para o acompanhar.

•Fotografias: Pense antes de publicar algo. Evite publicar fotografias que permitam a sua identificação (por exemplo, se alguém efectuar uma pesquisa pela escola que frequenta) ou que contenham imagens especialmente sugestivas. Antes de transferir uma fotografia, pense em como se sentiria se esta fosse vista por um pai/avô, professor de uma universidade ou futuro empregador.

•Verifique os comentários regularmente. Se permitir comentários ao seu perfil, verifique-os regularmente. Não responda a comentários ou e-mails maldosos ou embaraçosos. Elimine-os, não permita comentários de pessoas ofensivas e comunique a identidade das mesmas ao hi5. Além disso, nunca responda a e-mails de estranhos que façam perguntas pessoais.

•Seja honesto em relação à idade. As nossas regras de filiação existem para proteger os utilizadores. Se mentir acerca da idade, o hi5 eliminará o seu perfil.

•Confie nos seus instintos se suspeitar de algo. Se se sentir ameaçado por alguém ou desconfortável por algo online, conte a um adulto em quem confie e informe a polícia e o hi5.

•Informações adicionais. Para obter informações adicionais sobre segurança online e para saber mais, veja estes recursos: http://www.blogsafety.com e http://onguardonline.gov/socialnetworking_youth.html

Conselhos para os pais
•Seja sincero com os seus filhos e encoraje-os a falar consigo se tiverem problemas online— desenvolva a confiança e a comunicação, uma vez que não há regras, leis ou software de filtragem que o substituam como a primeira linha de defesa de um adolescente.

•Fale com os seus filhos sobre a forma como utilizam os serviços. Certifique-se de que entendem as directrizes de segurança básicas da Internet e de redes sociais. Estas incluem proteger a privacidade (incluindo a utilização de palavras-passe), nunca publicar informações de identificação pessoal (como, por exemplo, o apelido, número da segurança social, número de telefone da residência ou números de cartão de crédito), evitar encontros pessoais com pessoas que conheçam online e não publicar fotografias impróprias ou potencialmente embaraçosas. Sugira que utilizem as ferramentas de privacidade do hi5 para partilhar informações apenas com pessoas que conhecem realmente (e não apenas virtualmente) e nunca admitir “amigos” nas suas páginas, excepto se souberem quem são.

•Considere estabelecer que todas as actividades online tenham lugar numa área central da casa, não no quarto dos seus filhos. Tenha em atenção de que poderão existir outras formas de as crianças poderem aceder à Internet fora de casa, incluindo em vários telemóveis e consolas de jogos.

•Tente que os seus filhos partilhem blogs ou perfis online consigo. Utilize motores e ferramentas de pesquisa em páginas de redes sociais para procurar o nome completo do seu filho, o número de telefone e outras informações identificadoras.

•Diga aos seus filhos para confiar nos seus instintos no caso de suspeitarem de algo. Se se sentirem ameaçados por alguém ou desconfortáveis por algo online, devem contar-lhe e, em seguida, informar a polícia e o hi5.

Um regresso para várias gerações

Setembro 29, 2007

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Quando os Fiction Plane, banda do filho de Sting, que se mostrou muito semelhante ao pai em palco, estava a assegurar a primeira parte do espectáculo, a assistência ainda estava aquém das expectativas, muito devido ao trânsito que se fazia sentir na auto-estrada de acesso ao Jamor.

Aos poucos, o recinto encheu até quase esgotar para ver este regresso dos The Police a Portugal, 27 anos depois. Provavelmente não esgotou, devido aos altos preços (o bilhete mais barato andava à volta dos 45€) e ao facto ser a meio da semana. Aquando, porém, da entrada de Sting, Andy Summers e Steward Copeland, já se tinha criado um ambiente para um concerto memorável.

O vocalista da banda optou pelo alinhamento que tem sido utilizado em toda a tournée. “Message in Bottle” abriu o concerto, seguido de “Sincronicity II”, que deu lugar a um de grande espectáculo de luzes e ecrãs, e “Walking On The Moon”.

As letras das melodias passavam de boca em boca pela plateia, e podemos dizer que também de geração em geração, com os clássicos “Roxanne” e “Every Breath You Take” a levarem os fãs ao rubro. Para os mais velhos foi o reviver da adolescência, enquanto que para os mais novos, muito deles que acompanhavam os pais, foi o descobrir de uma banda que ouviam por influência dos progenitores.

A verdade é que ambas as partes ficaram deliciadas com o concerto, e a presença de Sting em palco deixava encantado o público feminino, apesar de se constatar que o cantor, cuja única exigência foi a transformação do seu camarim num mini-ginásio, está extremamente magro.

Três ecrãs individualizavam cada um dos músicos da banda, em duas horas de muito Rock’n’Roll. Não obstante a idade e as rugas, os The Police continuam com a mesma forma e energia em palco que os caracterizou nos anos 80. O baixo e a voz de Sting estiverem sempre no timbre exacto, juntamente com a guitarra de Andy Summers e com a bateria de Steward Copeland. Com 30 anos de carreira, os The Police parecem até o momento não mostrar sinais de velhice, neste regresso da banda aos palcos.

Ao acabar o concerto, os músicos abandonaram em 30 segundos o palco, tendo à sua espera no exterior três BMW 740, um para cada elemento da banda. Refira-se que muitos espanhóis assistiram a este concerto, pois o único espectáculo dos The Police em Espanha é em Barcelona e para muitos dos “nuestros hermanos” saía mais barato viajar até Lisboa do que ir até à Catalunha.

Um bilhete caído do céu

Pedro Ramalho, de 36 anos, já tinha perdido as esperanças de ver os The Police. A duas horas do espectáculo, este administrador de redes estava no supermercado quando recebeu o telefonema de um cliente a lhe oferecer bilhetes Vip para ver Sting e companhia. “Quando recebi o telefonema, larguei tudo e voei para o Estádio Nacional”, recorda.

Fã dos The Police, uma banda que marcou a sua adolescência, confessa que não era dos regressos, em termos musicais, que mais esperava, mas que foi sempre bom assistir àquele que será provavelmente o último concerto do grupo em Portugal. Considera que os elementos da banda “melhoraram muito com a idade, nomeadamente em termos maturidade”.

Aquando do primeiro concerto dos The Police no nosso país, Pedro tinha apenas 9 anos e, portanto, não se deslocou na altura ao Estádio do Restelo. No entanto, considera que este foi “um concerto mais calmo, porque na altura não estávamos habituados a concertos desta dimensão, e quando vinha alguém da qualidade dos The Police era algo do outro mundo. Agora concertos como este são banais em Portugal”.

De Seia a Lisboa para ver … Copeland

Só o grande amor por uma banda leva um grupo de pessoas a vir de Seia a Lisboa, e regressar no mesmo dia. Foi isso que sucedeu com João Tilly, pai, e amigos. João, de 16 anos, é uma das provas do misto de gerações presente neste concerto.

Este jovem apenas conhecia alguns grandes clássicos dos The Police, como “Every Breath You Take” e “Roxanne”, mas, há alguns meses, resolveu investigar a discografia da banda a fundo: “Foi através do meu pai, que sempre foi fã, que descobri os The Police. Quando soube que ia haver uma tour que ia passar por Portugal, sugeriu que fôssemos. A partir daí, arranjei os álbuns e passei a conhecer melhor a banda”. Hoje, João afirma, com toda a convicção, que os The Police são uma das suas bandas preferidas.

Confessou que ficou surpreendido por no Estádio Nacional encontrar muitos jovens, pois esperava ver “aquele pessoal com idade a rondar os 40 anos”.

Quando falamos dos The Police, o primeiro elemento que nos vem a cabeça é Sting e a sua voz inconfundível. No entanto, admiração que o jovem natural de Seia sente pela banda é sobretudo devido ao baterista e fundador: “O Stewart Copeland foi a razão que me levou a gostar da banda porque o considero um baterista absolutamente genial, com uma criatividade e gosto musicais inigualáveis”.

João, pai, e amigos, saíram de Seia às 15:30 da tarde de terça-feira e o só regressaram a casa por volta das 5:30 da madrugada. Mas, segundo João Tilly, “valeu a pena”.

Miguel Pereira

Panaceias Modernas- As Novas Religiões

Setembro 29, 2007

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 Eles estão em todo lado. Na porta do metro, em qualquer paragem da cidade, ou até mesmo nossa caixa do correio. São folhetos que prometem felicidade eterna, e  prosperidade financeira,  a solução para todos os males da humanidade. Muitos consideram-nos seitas, mas eles asseguram que são o “caminho da salvação”. Numa época em que os valores católicos começam a ser postos em causa, novos movimentos religiosos aproveitam esta brecha para prosperar. A Igreja Universal do Reino de Deus e Igreja Maná, são um bom exemplo disso, ocupando hoje um lugar de destaque na sociedade portuguesa, e um número de fieís que não pára de crescer.

Sete horas e quarenta e cinco minutos da tarde . A multidão começa a aglomerar-se junto ao Templo Maior em Chelas. Está a ponto de iniciar-se mais uma reunião das conquistas financeiras. A esperança de um futuro financeiro mais risonho espelha-se no rosto de quem chega. Olhos mais curiosos observam de longe, um ritual que já há muito se repete, e aqui e ali ouvem-se vozes críticas a quem se “desvia do caminho do senhor”. ”Custa-me entender como é que há pessoas que se deixam levar por estes gajos”, diz um jovem que vive em frente ao Templo.

 Dentro dos corredores da IURD a atmosfera é pesada. Apesar do espaço ser grande, a multidão que se chega não oferece grandes comodidades, e qual metro em hora de ponta, sentimo-nos quase esmagados.

O Pastor Paulo dá início à sessão, e num ápice a multidão levanta-se eufórica, ecoando cânticos divinos. Existem pessoas que entram em êxtase, acreditando estar a contemplar o seu messias. Ao centro um pastor mais novo evoca uma dúzia de palavras ao mesmo tempo que exorciza uma senhora que estremece a cada palavra. Este misto de emoções contagia os presentes que ficam petrificados a olhar para o palco.

    “Aqui sinto-me em casa”

   José Maria, 67 anos, um rosto cansado pela velhice, há muito que conhece estes rituais, A ele as paredes do Templo Maior já não oferecem segredos. “Não troco isto por nada”, confessa sorridente. Os seus olhos confirmam aquilo que a sua boca diz. Ali sente-se em casa.

 O divórcio com a Igreja Católica, deu-se à cerca de seis anos, na altura da morte do filho, num acidente de viação. Com o filho ia a nora. Os netos felizmente tinham ficado em casa. “Deus foi injusto comigo, roubou o meu filho e o pai dos meus netos”, desabafa consternado. Durante os seis meses que se seguiram pouco comeu ou bebeu. Perdeu a vontade de viver. “Sentia que tinha morrido com o meu filho”. Há três anos quando ouviu falar na IURD pela primeira vez, José nunca imaginou que passado dois meses e meio estaria a participar numa das  suas cerimónias. “Lembro-me de na altura  ter dito à minha mulher que a IURD não passava de mais uma seita, que tal como as outras só queria dinheiro, mas hoje a minha opinião mudou radicalmente.” A persistência da mulher foi determinante para que hoje os dois cruzem todas as semanas este corredor. Cada vez que saem dizem-se mais revitalizados e com mais força para suportar as adversidades. “Aqui encontramos pessoas com problemas semelhantes aos nossos e às vezes até piores. Somos uma grande família”, confessa emocionado. A certa altura um grupo de pessoas começa a levantar-se. O Pastor Paulo chama os fiéis e pede-lhes que depositem o seu dízimo num envelope e o entreguem no púlpito. Pega na Bíblia com as duas mãos e lê uma passagem em voz alta: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimentos na minha casa, e provai-me nisto, diz o senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós bênção sem medida”.   

 De repente lá fora começa a chover mas o som das gotas, que caiem tímidas pelas janelas do templo, são abafadas pelos gritos da multidão que se encontra de pé fazendo um cordão de energia positiva, acreditando estarem a depositar nos outros a esperança que trazem consigo. Ali mais do que tudo respira-se uma atmosfera transcendental em que o espiritual e o terreno se confundem numa fusão de sentidos.

Jovens Manás

 São sete horas e vinte minutos. Cai a noite e com ela chega o frio. As ruas de Vila de Nova de Paiva estão desertas, apenas se vêm aqui e ali uns mais atrevidos que não dispensam um bom cafezinho. A poucos metros ergue-se a nova Igreja Maná, e a passos largos caminham alguns jovens para as portas de entrada. Por alguns instantes, um grupo detém-se a  ler um pequeno cartaz que diz “O senhor está connosco”.  Dentro da Igreja reina a alegria. Dezenas de jovens ecoam cânticos religiosos ao som de guitarras e de um órgão que se encontra lá no fundo. Hoje é a reunião semanal de jovens. Vão chegando a conta gotas com uma alegria contagiante. Podiam estar com a família ou com os amigos no café, mas preferem aquele espaço. Ivo Miguel, vinte e seis anos é um desses casos. “Hoje, por exemplo, fui convidado por uns amigos para irmos jantar a Viseu, mas disse-lhes que não podia, conta. “Por vezes não compreendem a nossa posição, e isso faz com que nos afastemos um pouco, mas depois volta tudo à normalidade”. Tatiana Raquel, vinte e dois anos é uma das cinco raparigas que faz parte daquele grupo e também a que à menos tempo está ali. Apesar disso “a adaptação foi super fácil” e sente ter encontrado ali amigos para toda a vida. Confessa ter o sonho de vir a tornar-se Pastora e divulgar a fé Maná, algo invulgar numa rapariga para a sua idade, mas que apesar disso não a envergonha. “Vergonha de servir Deus!. Jamais sentirei, penso que é uma desígnio que tenho, só posso agradecer a Deus por isso”. Ao fim de semana veste a farda de bombeira e parte em missões de ajuda. “No meu tempo livre gosto de ajudar os outros, no fundo somos todos irmãos não é?”

Uma igreja com cunho português

A Igreja Maná foi fundada em Portugal em Setembro de 1984 por Jorge Tadeu, um engenheiro Moçambicano. Apesar de ser uma pequena comunidade ao início, hoje cresceu e espalhou-se por todo o mundo. Podemos encontrar Igrejas em todas as partes do país assim como por toda a Europa , África e América. No continente asiático apenas China e Índia  acolheram esta Instituição.

 A Igreja Maná diferencia-se da Igreja Católica em vários aspectos, a começar pelo tipo de rituais praticados. “Aqui os nossos rituais são mais animados”, diz orgulhoso Ivo. “Temos muita música, animação, podemos cantar e claro as viagens que fazemos juntamente com outros jovens Manás.”  A crença em curas milagrosas e na prosperidade financeira é também um traço marcante desta igreja. Uma igreja que estes jovens esperam que venha a ser a “Igreja do Futuro”. “A Igreja Católica está em queda livre, pois não vejo da parte deles uma renovação de ideias, o que por exemplo aqui acontece. Temos aqui desde dança, a teatro, torneios de futebol, é tudo muito feito a pensar nos jovens”, sustenta Ivo. Sentado a um canto da sala o Pastor António, observa os seus jovens discípulos, e do seus olhos parece emanar um brilho de grande orgulho. “Sinto-me muito contente com o meu trabalho. É gratificante olhar para estes jovens e ver a sua vontade de se unirem a Deus. Creio que estes jovens são o futuro e que é preferível estarem aqui connosco do que por aí nos caminhos da perdição”. Para o Pastor António “esta é a melhor coisa que podia fazer”, mas confessa que “jamais  conseguiria ser padre”, pois sente-se muito contente por poder conciliar as duas coisas que para ele são indispensáveis: “Poder viver a minha vida de casado e servir o senhor. É de facto o melhor que se podia desejar”.

 

“Cheguei a prostituir-me”

No Templo Maior a reunião das conquistas financeiras prossegue o Bispo Paulo diz  uma oração com um grande fervor. “Que Deus vos abençoe”, diz num sotaque brasileiro. Ao seu lado está o seu ajudante Jorge Batista de 39 anos.

Quem vê agora Jorge Batista não consegue imaginar que aquele homem à pouco mais de 3 anos se prostituía no parque Eduardo VII. “Passei por muitos tormentos. Bebia, consumia droga e cheguei a …prostituir-me”. As palavras saem-lhe com bastante dificuldade, quando recorda o tempo “mais negro da sua vida”. No entanto hoje sente-se um homem novo. “Hoje já não penso muito no passado, apenas quando quero ganhar mais motivação para seguir em frente. Deus está comigo”

 

Ser dizimista

Se existem estórias de aparente sucesso, outras há que são tudo menos isso. Conceição Carvalho, 43 anos, ainda fala da IURD com muita dificuldade. Acusa-a de lhe ter roubado muito dinheiro. “A única palavra que eu encontro para os caracterizar é a palavra ladrão”, confessa revoltada. Entrou para a IURD em Março de 2001. Um ano antes tinha-lhe sido detectado um cancro na mama e logo depois o seu marido foi despedido. Recorda-se que na altura ficou “desorientada, sem saber o que fazer, até que ouviu falar na IURD e decidiu experimentar. “Estava complemente de rastos, precisava de muito apoio”. De início até gostou muito do ambiente mas a pouco e pouco ficou desiludida: “Tornei-me dizimista, e todos os meses pagava 10% daquilo que recebia” A ganhar pouco mais de 350€ por mês e sendo a única a trabalhar, começou  a fazer grandes ginásticas. “Lá nos íamos equilibrando, mas a certa altura a situação tornou-se insustentável”. Quis largar imediatamente a IURD, mas recebia ameaças. “Chegaram a ameaçar-me, não digo fisicamente mas psicologicamente. Diziam-me que havia dois caminhos ou amar a Deus e ser abençoado, ou virar-lhe as costas e ser amaldiçoado”. O medo de Conceição conteve a sua vontade de sair. “Estava psicologicamente desgastada e eles aproveitaram-se de mim para manipular-me. Sim fui manipulada”, confessa Conceição. Quando finalmente ganhou coragem saiu, e hoje não se arrepende, diz até viver mais tranquila. “Nunca me arrependi. Agora sim sinto que tenho liberdade para começar a minha vida e lutar por mim mesma”, observa com um sorriso na cara.

 A vender um produto

Nascida em 1979 no Brasil pelas mãos do Bispo Edir Macedo, a Igreja Universal do Reino de Deus insere-se juntamente com a Igreja Maná nos movimentos de ruptura com a Igreja Católica. Tornam-se mais convidativas por prometerem felicidade sentimental, curas milagrosas e a libertação de espíritos malignos. Apresentam as respostas rápidas. “Pare de sofrer”, é uma mensagem que podemos, por exemplo, ver em qualquer corredor da IURD. A fragilidade humana é focada em todas as suas vertentes, “interessa captar a sensibilidade das pessoas”, diz Conceição Carvalho. Já José Maria não tem dúvida em afirmar que a sua igreja “é a única que permite um contacto directo com Deus”

O certo é que a IURD tem sido confrontada com várias polémicas que têm posto em causa a credibilidade das suas intenções. Não raras vezes, são acusados de charlatanismo e extorsão, de serem “comerciantes de milagres” Dona de um vastíssimo império que inclui a Rede record, um canal televisivo por cabo, através do qual podem veicular facilmente a sua mensagem. , como se de Marketing se tratasse. “Eles estão como que a vender-nos um produto. Dizem-nos que se experimentarmos vamos ficar satisfeitos”, diz Conceição Carvalho em tom de crítica.

 

Tempos difíceis

Mais do que saber se as intenções destes movimentos são os mais honestos ou não, devemos debruçar-nos sobre as principais motivações que estão a conduzir estas pessoas a estes centros de ajuda espiritual. Em tempos difíceis para a economia mundial, principalmente para a portuguesa, palavras como desemprego e inflação, descriminação e criminalidade são sinais de que caminhamos para um futuro incerto, cheio de dúvidas. Neste contexto uma entidade religiosa que se proponha vender “ilusões e esperanças”, facilmente consegue prosperar.

 

 Cada um no seu caminho

Nove horas da noite. O Pastor Paulo despede-se dos fieis. “Por hoje é tudo minha gente que Deus vos abençoe”. Os fieis levantam-se e murmuram despedidas.

José e a Mulher deslocam-se para a saída do Templo. Trazem consigo um olhar brilhante e um sorriso de satisfação. Sentem no seu coração que aquele é o seu caminho. Caminham a passos largos para o carro que se encontra alguns metros à frente e, atrás deles, a noite cai serena.

 

Fábio Canceiro