“Colocar o nome no mapa”

By oonline

O projecto Map My Name foi lançado a 22 de Abril e tinha um objectivo ambicioso: descobrir ao certo quantas pessoas utilizam a Internet, em apenas um mês. Desenvolvido por dois estudantes da Universidade de Aveiro, João Ribeiro e Sérgio Veiga, o Map My Name é um projecto pioneiro, que parte de uma fórmula que não é nova, a de passar a palavra.
Passado um mês, o projecto chegou ao fim, sem chegar ao objectivo primordial, contudo, segundo os mentores, foi um sucesso.

Miguel Pereira

Tudo começou numa simples conversa de café: João Ribeiro e Sérgio Veiga, ambos estudantes do curso de Engenharia de Computadores e Telemática, da Universidade de Aveiro, conversavam sobre as mudanças que ocorreram na sociedade após a aparição da Internet. Com a conversa, os dois amigos, que já elaboraram vários projectos juntos, começaram a ter uma ideia para mais uma iniciativa, que teria como objectivo de chegar ao todo da população mundial que utiliza a Internet. Um projecto ambicioso, que, todavia, teria de ser elaborado de forma diferente, de modo a ser pioneiro e a ter um impacto global. Foi dada a ideia de colocar cada utilizador num mapa, que correspondesse à sua localização geográfica, surgindo daí a ideia para o nome Map My Name, que, segundo João Ribeiro, “só por si resume o projecto”.

Ao longo de cinco meses, a dupla esteve a desenvolver um projecto, cujo sucesso dependeria do “passar a palavra”. Partiram de uma fórmula de progressão em matemática exponencial para determinar quanto tempo teria o projecto: “A nossa variável é o dia e ela dá-nos o número de pessoas que obtidas em X dia. Ou seja, basicamente se cada um de nós contar a três amigos e esses três amigos contarem a outros três, chegamos ao número de utilizadores da Internet em 19 dias”, explica João, que, no entanto, alargou o prazo para um mês, com a esperança de por essa altura os registos no projecto ultrapasse o número que se estima da população mundial. Outro conceito que os dois amigos queriam provar era que cada pessoa no mundo está a menos de seis pessoas de distância.

Os dois estudantes estabeleceram uma data para o lançamento do projecto, que, de acordo com João, não foi escolhida ao acaso:”Como é do conhecimento comum, o dia 22 de Abril é o dia da Terra e não há melhor dia para lançar um projecto que se pretende que seja de impacto global do que o dia da Terra. Assim, associamos o projecto a ideias ambientalistas. Se conseguíssemos chegar a todas as pessoas que utilizam a Internet, por que raio é que não podemos ter preocupações com o ambiente”. Para que o Map My Name fosse lançado a 22 de Abril, os mentores do projecto tiveram de fazer alguns sacrifícios pessoais e profissionais. Sérgio Veiga recorda que houve muitos fins-de-semana em que abdicou de estar “com a família e com a namorada para estar com o João a trabalhar no projecto, para além das inúmeras noites passadas em claro”.

kubrickheader.jpg

A partir de 22 de Abril, ao acedermos ao sítio www.mapmyname.com, podíamos ter acesso ao projecto desenvolvido por João e Sérgio. Trata-se de um site Web 2.0 (uma nova forma de fazer sites), baseado em tecnologias open source e que utiliza o API do Google Maps, que permite que os utilizadores coloquem o seu nome no mapa. Logo ao abrimos o site, temos acesso a um vídeo em que João explica, em Inglês – refira-se, igualmente, que todo o site é em Inglês –, o objectivo da iniciativa. “O objectivo do vídeo era explicar em detalhe o projecto. Não foi fácil a gravação do vídeo. A máquina de filmar que nos emprestaram não tinha muito qualidade e o quarto onde gravamos não tinha muita luz. A dada altura o Sérgio estava com um candeeiro à frente da minha cara”, lembra João, com algum humor, a gravação do vídeo de apresentação do projecto. No canto superior direito, está presente o slogan do projecto: “One simple step and your in the map”, um slogan que surgiu com a ideia demonstrar que todo o processo era simples. E, de facto, estamos perante um projecto bastante simples, onde apenas precisamos de nos registar e de seguida podemos colocar o nosso nome na nossa rua de residência. Sublinhe-se que a partir do momento em que nos registamos no Map My Name, passamos a fazer parte do projecto e da estatística.

Os primeiros registados foram o círculo de amigos dos jovens. A primeira conquista dos dois estudantes surgiu quando apareceram os primeiros registados estrangeiros. “Na manhã do dia 23, quando acordei, verifiquei que o número de registados havia aumentado substancialmente e já estavam pessoas estrangeiras registadas. A minha primeira reacção foi telefonar logo ao Sérgio, para lhe comunicar a nossa primeira vitória”, recorda João, com enorme entusiasmo, e refere que “os primeiros dias foram bastaste interessantes”, porque todos os seus amigos opinavam, chegando a um momento em que ambos, à semelhança dos jornalistas, andavam com um bloco de notas a apontar tudo o que diziam. Os jovens reconhecem que foi muito graças aos amigos que melhoraram algumas coisas no site.

Rapidamente, a vertente pioneira do projecto chamou a atenção dos Blogs e mais tarde da comunicação social. A divulgação do Map My Name começou por ser feita através da Newsletter da Universidade de Aveiro. Depois, João e Sérgio começaram a ser contactados por jornais regionais, como o Primeiro de Janeiro e o Jornal da Bairrada, e o ponto alto chegou no momento em que foram contactados pela RTP: “Recebi um telefonema da repórter da RTP e tentei sugerir algo que fosse interessante de passar em televisão, como, por exemplo, aparecer o pivot registado no site”, recorda João, a origem da reportagem emitida no Jornal da Tarde do dia 27 de Abril. Refira-se que a divulgação mediática não se ficou só pelo nosso país, pois houve contactos com o mais conceituado jornal online holandês e com uma rádio belga.

Este sucesso em termos mediáticos não os surpreendeu, uma vez que o objectivo ambicioso dos dois jovens era susceptível de ser notícia. Contudo, este impacto mediático fez com que transparecesse a ideia de que se tratava de um projecto para um trabalho de fim de curso, algo que é prontamente negado pelos dois mentores.”A Universidade está, de certa forma, envolvida, porque os nossos conhecimentos foram adquiridos lá. Mas isto trata-se de um projecto pessoal, desenvolvido apenas por nós”, esclarece João, um dos pontos controversos divulgados nos media. Todavia, os dois estudantes percebem o por quê da confusão, dado que para enquadrar o projecto numa notícia era necessário referir o estabelecimento de ensino.

A 9 de Maio, Os dois amigos criaram um blog (http://blog.mapmyname.com) para divulgar ainda mais o projecto, bem como para que qualquer um dos utilizadores pudesse comentar e exprimir a opinião em relação ao projecto.

Um mês passou, rapidamente. A 23 de Maio, João e Sérgio deram oficialmente por encerrado o projecto, com apenas 18 mil pessoas registadas, muito aquém do que seria esperado. Isto é, o objectivo do projecto, de chegar ao número preciso de utilizadores da Internet, falhou. No entanto, o facto de os números terem ficado longe daquilo que seria suposto não desanima os mentores do Map My Name. Segundo Sérgio, é preciso ter em conta diversos factores, como “o facto de várias pessoas terem o mesmo grupo de amigos, ou nem todas as pessoas terem correio electrónico”. O jovem refere ainda que “houve inúmeras pessoas que não validaram o seu registo”, assim como “o total de page views é de cerca de 200.000”. Portanto, não há razões para se falar em fracasso, pois o grande objectivo era colocar a iniciativa no ar.

A primeira reacção da dupla após o fim do prazo foi de fechar o site. Porém, a pedido de algumas pessoas, o Map My Name voltou ao ar. “Para todos os efeitos o projecto acabou, apenas temos o site no ar para algumas pessoas puderem ainda se registar e para saberem que o projecto existiu”, refere Sérgio, triste por não ter conseguido o objectivo a que ele e João se propuseram.

Apesar de não terem conseguido atingir o objectivo, Sérgio considera que “a iniciativa foi um sucesso”. Apenas falhou o elemento que, já à partida, anteviam que seria o factor mais complicado do projecto: as pessoas. Grande parte dos registados, mais de 90%, não trouxe as três pessoas que lhes eram “exigidas” e, portanto, o Map My Name não atingiu o seu objectivo. Outros problemas, contudo, também surgiram. “Tivemos problemas com o servidor, o que causou má impressão nos utilizadores, e também alguns e-mails foram parar ao lixo electrónico, o que fez com que algumas pessoas não pudessem validar o registo”, frisa Sérgio.

Logo a seguir, ao encerramento do projecto, os jovens apresentaram no seu blog um conjunto de estatísticas que foram possíveis apurar através dos registados, um desejo inicial de Sérgio e João aquando do começo do projecto.

No último texto escrito no blog, João lamenta o facto de muitas pessoas pensarem que “eu sou só um, que não vai fazer a diferença na contagem de milhões”. Ou seja, um estado de espírito que não ajuda, em nada, projectos deste tipo. Após um mês que, devido ao impacto que teve o projecto, foi gratificante para João e Sérgio, os estudantes agradecem a todos aqueles que, sem receberem nada em troca, acreditaram e aderiram ao projecto.

Há um grande desejo por parte dos dois amigos em continuar o Map My Name e criar uma rede social virtual diferente. Mas, infelizmente, esse é um cenário que parece cada vez mais improvável, por uma simples razão: não há financiamento. Um factor que deixa naturalmente frustradas as esperanças de uma continuidade do projecto. Quer Sérgio, quer João, defende que se fosse num outro país, que desse mais atenção aquilo que é feito pelos locais, como, por exemplo, os Estados Unidos e até mesmo a Espanha, provavelmente já teriam o capital necessário para continuar o projecto. “Infelizmente, tem-se a ideia de que aquilo que é português é mau, e o facto de muita gente pensar que é um projecto da Universidade de Aveiro também não ajuda”, refere Sérgio. Até da própria Universidade não têm recebidos apoios, nem sequer palavras de parabéns, o que os deixa de certa forma resignados, embora compreendam, dado que o reitor deve pensar, um pouco por confusão nas informações, que se trata de apenas mais um projecto do estabelecimento.

Para tentar manter o projecto, há no site um link em que qualquer pessoa pode doar até 100€. Os dois jovens receberam até o momento cerca 50€, quantia insuficiente para pensar na continuidade do Map My Name, como também para cobrir toda a despesa feita no projecto, cerca de 4.000€.

Por agora, João e Sérgio passam cerca de duas horas por dia a responder a todos os emails recebidos. Porém, os dois jovens pensam que é altura de estabelecer certas prioridades: “Nós estamos quase sempre em contacto, para não acontecer o caso de ambos respondermos ao mesmo email. Mas sentimos que não podemos dedicar tanto tempo ao projecto, porque eu tenho um curso para acabar e o Sérgio um mestrado”, sublinha João, com consternação e com a esperança de que nos próximos dias uma das mensagens recebidas por correio electrónico seja de alguém que pretenda investir o capital suficiente para a continuidade da iniciativa.

Uma Resposta para ““Colocar o nome no mapa””

  1. Frisa produtora Diz:

    gostei

Deixar uma Resposta